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23.05.2007
Sabe aquela sensação de estar sendo "vigiado"?


Visitei o sítio www.orkurioso.com. Depois de ver essa "ferramenta", fiquei me sentindo "vigiado".

 

Tudo tem um lado bom e um lado ruim. A reunião de amigos, proporcionada pelo Orkut, é legal. Você pode afirmar sua imagem, mostrar suas fotos para os amigos, falar da sua vida, etc, mas cada vez mais você tem menos privacidade.

 

E uma vez colocadas lá, as suas informações ficam num banco de dados gigantesco. Mesmo que "delete" meu perfil nesse sítio, ele ficará gravado em algum meio magnético enquanto o dono do sítio quiser. E se o dono do sítio resolve vender meu perfil para outra empresa?

 

Daí você diz: - E por quê ele iria querer fazer isso? Um perfil só não deve valer nada...

 

Bom, pra começar, segundo Kasanoff, em 2002, um lote com 10 mil e-mails valia 50 reais, para empresas interessadas em praticar publicidade via e-mail. Isso mesmo, lembra aquele e-mail com uma propaganda que você recebeu mês passado? Como descobriram seu e-mail?

 

Quando você se cadastra em qualquer sítio, as suas informações ficam gravadas, e de repente as empresas vendem essas informações a outra empresa, ou até trocam bases de dados. E lá vai seu endereço de e-mail junto com seu nome, telefone, idade, e até seu CPF (se é que você informou em algum momento), transitando de uma empresa para outra, sem sua permissão. Essa é uma prática habitual das empresas grandes, principalmente das que trabalham com marketing.

 

Existe uma prática chama de personalização de produtos e serviços. A personalização acontece para que as empresas possam oferecer produtos cada vez mais direcionados ao cliente. Ou seja, elas descobrem que você adora chocolate branco, então, de vez em quando, quando você estiver passando pela loja que tem essas informações sobre os seus gostos, a loja vai "dizer": -Olha fulano, sua barra de chocolate preferida está em promoção!

 

Como as empresas descobrem os seus gostos?

 

O tempo todo você fornece informações preenchendo cadastros, fazendo compras com seu cartão de crédito, compras no supermercado, na Internet. Por onde quer que você deixe informações suas, sejam pessoais, sejam relativas ao que você paga e leva pra casa, todas elas estão sendo registradas por algum banco de dados de alguma empresa.

 

Então, as empresas trocam informações.

Então, as empresas descobrem quem você é e do que você gosta.

 

Atualmente as empresas ainda são meio "burras" ao lidar com tanta informação, mas a tecnologia está aí pra sanar as burrices, e em pouco tempo teremos uma sociedade que nunca se esquece.

 

Acha exagero?

 

Quantas câmeras tem no shopping? E espalhadas pelas cidades grandes (para vigilância)? A tecnologia de reconhecimento facial através de imagens está evoluindo rapidamente. Logo você estará passeando pela rua e uma câmera de segurança pública “olhará” para você e “dirá”: -Olha só, o fulano passa por essa rua às 14:30.

 

Aí você diz: -Não, isso não existe, ou está muito longe de acontecer!

 

Lembra o caso do metro de São Paulo, a alguns meses atrás, onde as câmeras gravaram uma imagens embaçadas de uma torcida  fazendo arruaças? Pode ir hoje ao metro e você vai ver alguns cartazes com as fotos bem definidas dos marginais.

 

-Certo, até aí é só uma câmera de segurança identificando alguém.

 

Imagina o seguinte: o mesmo governo dono das câmeras de segurança, como aquelas do metro, solicita cópias das bases de dados de empresas, das mesmas empresas que você andou preenchendo cadastros e fazendo compras. As mesmas empresas que sabem que você adora chocolate branco, pois sempre comprou chocolate branco, e de uns tempos pra cá vem comprando muito vinho. Daí a mesma câmera do metro, daqui a alguns anos, vai dizer: -Olha só o fulano que adora chocolate branco e de uns tempos pra cá vem comprando muito vinho. Essa compra de vinho pode estar associada à sua separação conjugal, pois nesse banco de dados do cartório está dizendo que a esposa dele entrou com o pedido de separação.

 

A personalização é feita através da construção de perfis. Esses perfis são construídos a medida que uma determinada empresa começa a reunir dados sobre uma mesma pessoa. Ela reúne dados a partir dos seus dados pessoais. A partir de uma base de dados pessoais sólida, ela pode sair comprando informações e associando o que ela consegue dessa mesma pessoa.

 

Quando a empresa estiver com uma base consistente, ela vai saber quase tudo (ou tudo) a seu respeito, a partir do que você informou. Privacidade é o direito e ser deixado só, de mostrar somente o que se desejar que outras pessoas vejam. Essa prática de criação de perfis é um abuso, uma invasão total da privacidade do cidadão.

 

Se a criação de perfis é um absurdo, o que dizer então da venda desses perfis?

 

Se uma empresa de seguros de automóveis comprar aqueles dados que dizem que de uns tempos pra cá você se tornou um consumidor ativo de vinhos, ela vai, provavelmente, associar o seu perfil ao alcoolismo. Essa associação é automática, feita por computador, não precisa que ninguém aperte botões. Então o corretor vai olhar na tela e vai te dizer:

-Bem Sr Fulano, seu seguro é x.

Só que esse X é 2 ou 3 vezes mais o valor que você pagava antes. E é lógico que eles não vão te dizer o motivo do aumento.

 

Além disso tudo, as empresas alegam que os perfis são delas, pois são fruto do emprego de sua tecnologia e mão-de-obra. Como é que meus dados pessoais, dados sobre minhas compras, dados sobre minha vida particular e até mesmo meus histórico de saúde podem ser de propriedade de alguém que não eu?

 

Pois bem, essa sensação de estar sendo vigiado é a ponta do iceberg. Enquanto eu posso simplesmente retirar meu perfil do Orkut, ou reduzí-lo a ponto de receber da ferramenta apenas o que eu quero dela (e esse é o uso racional), vou fazer isso.

 

A verdade é que o Orkut está cada vez mais chato, a Internet está cada vez mais perigosa, os bisbilhoteiros estão cada vez anônimos, e a empresas (o que não é novidade) querem cada vez mais dinheiro.


(Luiz Lopes)

 

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