11.12.2008
Dedos de dignidade
RUI PALMEIRA (*)
Diz a sabedoria popular: vão-se os anéis, ficam os dedos. Mas, e quando estes membros se vêem na iminência de serem mutilados? Que fazer? Se voltar contra a ameaça da amputação é a única alternativa. Parece que nossa Assembléia Legislativa vive continuamente este momento dramático.
Necessário jamais esquecer: cerca de R$ 280 milhões foram desviados dos cofres do Legislativo Estadual. Foi preciso o pulso firme do Ministério Público Federal e da Polícia Federal para, inicialmente, conter a sangria e fazer justiça. Desde fins de 2007 que turbulências se somam, num processo de instabilidade que se abateu sobre a Casa de Tavares Bastos. A definição tardia e a passos lentos e uma nova Mesa Diretora, ainda não a ideal, parecia timidamente e sem a contundência necessária iniciar um ciclo de modesta alteração no parlamento.
A sociedade, com razão indiscutível, indignou-se. O plenário se apequenara. Já no início de 2007 ocorreu a aprovação absurda e ilegal (sem contar com meu voto e diante de meu protesto) da reeleição antecipada dos então dirigentes da Casa para um biênio que só se iniciaria 2 anos depois (!). Fatos que se somaram à fonte de repulsa quanto à Assembléia que jorra de cada alagoana e alagoano, fatigados de desmandos, ansiosos por moralização.
Novamente usando a linguagem do povo, “aos trancos e barrancos” a situação atual era menos crítica, ou menos vergonhosa, se assim é possível definir. Até que em 29 de outubro assistimos ao espetáculo grotesco da reincidente eleição antecipada da Mesa Diretora para o biênio 2009/2010. Eleição legalmente insustentável e anti-regimental.
Difícil caracterizar o ato de subserviência que culminou na “aclamação” por 22 votos de um ato eleitoral baseado em um vício jurídico. Além de tudo imoral e desrespeitoso para com a cidadania, para com o Estado e a instituição legislativa alagoana.
Por isso, acionamos a Justiça para reparar este lamentável erro de nosso parlamento.
Não se questiona aqui, de forma respeitosa, o direito elementar de parlamentares desejarem dirigir o parlamento. Questiona-se o método no mínimo nada republicano adotado, de novo, para o alcance deste fim.
Foram se os anéis e querem levar agora os dedos que restam de nossa dignidade. Mas não vão conseguir decepar nossa esperança, nosso empenho. Restauremos nossos anéis de honradez. Resguardemos inteiras e limpas, mesmo que feridas, nossas mãos.
(*) É deputado estadual.
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